MEU REPÚDIO E MINHA INDIGNAÇÃO
É com o coração profundamente ferido pela perda do meu pai João Martins, mas também com muita indignação, que venho manifestar minha preocupação com as circunstâncias do atendimento que ele recebeu no Hospital Regional de Mairi durante o período em que esteve internado (22 e 23/10/2026).
Faço questão de reconhecer que alguns profissionais foram atenciosos e demonstraram humanidade com meu pai e nossa família. A esses, deixo minha sincera gratidão. No entanto, reconhecer essas atitudes não significa deixar de questionar situações que nos causaram profunda preocupação e que, em nosso entendimento, precisam ser esclarecidas.
Meu pai era um paciente em estado grave, que necessitava de cuidados redobrados, atenção constante e assistência compatível com seu quadro clínico. Até a chegada da equipe da UTI Móvel, nós, familiares, não tínhamos conhecimento de que o fluxo de oxigênio ao qual ele estava submetido era mínimo. Foi a própria equipe que nos chamou a atenção para essa condição, demonstrando surpresa diante da situação encontrada.
Outro aspecto que nos causou profunda preocupação foi o monitoramento da saturação de oxigênio. Durante o período em que meu pai esteve sob os cuidados do hospital, não acompanhamos a realização desse procedimento e, naquele momento, não tínhamos conhecimento técnico para compreender sua importância diante da gravidade do quadro clínico. Somente depois fomos alertados de que esse acompanhamento era fundamental para um paciente nas condições em que ele se encontrava.
Nossa preocupação aumentou quando, durante a chegada da equipe da UTI Móvel, os profissionais questionaram a equipe do hospital se a saturação de oxigênio havia permanecido naquelas condições durante todo o dia. Pelo que presenciamos, não houve uma resposta esclarecedora para esse questionamento, o que aumentou nossa apreensão e deixou dúvidas importantes sobre o acompanhamento clínico do meu pai.
Relato esses fatos com base no que presenciamos, sem pretender emitir conclusões técnicas sobre a assistência prestada. Entretanto, considero legítimo questionar essas circunstâncias e solicitar que sejam devidamente apuradas, com acesso aos registros de monitoramento, às anotações da equipe assistencial e aos esclarecimentos formais da instituição.
Não escrevo estas palavras apenas como uma filha que sofre a dor irreparável de perder o pai, mas como alguém que acredita que todo paciente tem direito a um atendimento digno, seguro e humanizado, com cuidados adequados às suas necessidades.
Sei que nem toda luta pela vida termina como desejamos e que nem sempre é possível evitar uma perda. Não afirmo que outro atendimento teria mudado o desfecho da história do meu pai. Entretanto, considero legítimo questionar as circunstâncias que vivenciamos e buscar esclarecimentos sobre os cuidados que lhe foram prestados.
A dor da perda não pode nos silenciar diante de situações que merecem ser apuradas. Nenhuma família deveria precisar enfrentar, além do sofrimento de ver um ente querido em estado grave, a angústia de permanecer com dúvidas sobre a assistência recebida.
Meu pai merecia cuidado, atenção, respeito e dignidade até o último instante de sua vida. E toda família tem o direito de buscar informações e esclarecimentos sobre o atendimento prestado a quem ama.
Que este desabafo não seja recebido apenas como uma manifestação de dor, mas como um pedido de transparência, responsabilidade e compromisso com a vida. Espero que os fatos sejam devidamente esclarecidos e que eventuais falhas, caso identificadas, sejam corrigidas, para que outras famílias não precisem passar por situações semelhantes.
Hoje, falo movida pela saudade, pela dor e pela indignação. Meu pai se foi, mas a necessidade de respostas permanece.
A vida humana exige respeito. A assistência à saúde exige responsabilidade. E toda situação que desperte dúvidas sobre o cuidado de um paciente merece ser esclarecida com seriedade e transparência.
CAMILA MARTINS


